mínimo
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ando com uma lupa pregada nos olhos. não se pode distanciar de nada. nem mesmo das paredes, que estão sempre rentes. frutas, legumes, folhas, demasiadamente verdes, amarelas, vermelhas, seus machucados, suas raízes, seus odores que transmutam de um minuto a outro, nada escapa. minha mãe, com seus pés e mãos pequenos. o tempo, já tão escasso em direção ao passado e em direção ao futuro, que só existe mesmo na vertical, seja lá o que for a vertical. para estar longe de qualquer coisa é preciso furar a terra ou lidar com o pânico de olhar o céu. deito na varanda. me dá aflição aos pelos, pouco a pouco, vértebra a vértebra, entrando em contato com o chão. sentir, hoje, a aspereza destes azulejos, a temperatura, mesmo fria, me faz lembrar que ainda estou viva. que um corpo ainda é capaz de ter sensações, reações, espasmos, facear esta fome contínua: que reelabora, redefine, o tempo.