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30 graus no RJ. coincidentemente chego ao capítulo “Neve” da Montanha Mágica. Hans Castorp me divide em duas. suo de calor ou de frio. lembro a excitação dos 9 anos. o primeiro encontro com a neve. possuí-la dentro da boca. mastigá-la. o gosto do barro gélido. e ainda mais: a velocidade, a atração vertical, deslizando, enquanto competíamos, quem chegaria primeiro aos pés do penhasco, e o vento congelando a vida no corpo, a alegria do espírito, a alegria. suo de calor e de frio. sei que a neve também queima. e lembro, aos 27, da risada desesperada da Ana, em algum lugar das montanhas de Chillán, atirando a neve para todos os lados: me quema las manos, pero no importa!, gritava. lembro de sentir frio no Uruguay, aos 17, entender finalmente os velhos e seus gorros. de deitar numa praça no centro de Montevideo, aos 30, exatamente no recorte pequeno que fazia o sol no chão. desnudar o torso, para que a luz encontrasse minhas costelas, e manter as meias, sob a sombra obscura de um Agosto. a verdade é que sempre estive dividida em duas. o que enxameia, o que me falta. o sol desta cidade agora me atravessa, as duas partes, ao meio-dia, aos 31, toca a minha pele com suma maestria, sabe que estou faminta, aproveita-se para sulcar o meu corpo, sabe que estou fendida, exaurida, e não tenho desejo de negar-lhe nada.