SILVIA ELENA

COSTA RICA (1991)

GENEALOGIA DE UMA FEMINISTA

 

Sou mulher de corpos anteriores

corpos de mulheres,

de meninos sequestrados por seus pais

meninos violados por outros meninos.

meninas sífilis de nascimento

minas de bananeiras com sobrenome vítima.

Te convido para comer feijão no café

ver a lua pela manhã

e deixar que o passado,

em ritmo digestivo,

nos atravesse as tripas.

Tradução: Julia Bicalho Mendes

GENEALOGÍA DE UNA FEMINISTA


Soy mujer de cuerpos anteriores
cuerpos de mujeres,
de niños secuestrados por sus padres
niños violados por otros niños.
niñas sífilis al nacimiento
minas de banano con apellidos víctima.


Te invito a desayunar frijoles
ver la luna en la maña
y dejar que el pasado,
a ritmo digestivo,
nos atraviese las tripas.

(Versão original)

*

Uma latino-americana sabe que dela o mundo tem:

ancas negras, ossos mouros, olhos chineses, pele indígena.

A latino-americana reinventa genes no mestiço de suas crias

sabe que é dona de mil sangues

e lhe causam dor.

Sua onipresença não é sagrada nem bendita,

torna-se turva, blasfêmia e forçada,

é violação e farsa.

Uma latino-americana carnes soltas

conhece as rotas oceânicas

no salitre espesso de sua vulva

suas curvas são selvas e desertos

canções piratas, gritos de conquista

Mama África em resistência.

O corpo de uma latino-americana

é a história feita carne,

a ressurreição.

Tradução: Julia Bicalho Mendes

Silvia Elena 1
Sivlia Elena 2

Una Latinoamericana sabe que de ella tiene el mundo:
caderas negras, huesos moros, ojos chinos, piel indígena.
La latinoamericana reinventa genes en lo mestizo de sus crías
se sabe dueña de mil sangres
y le duelen.
Su omnipresencia no es sagrada ni bendita,
deviene turbia, blasfema y a la fuerza,
es violación y engaño.


Una latinoamericana carnes sueltas
conoce las rutas oceánicas
en la salitre espesa de su vulva
sus curvas son junglas y desiertos
canciones piratas, gritos de conquista
Mama África en resistencia.


El cuerpo de una latinoamericana
es la historia hecha carne,
la resurrección.

(Versão original)

*

EPISTEMOLOGIA DAS FORMIGAS.

As formigas somos assim, falamos sobre o meio ambiente e a automatização. Comemos as sobras da primeira esquina e nos fixamos no detalhe de cada movimento das nuvens.

 

Nos preocupa a quantidade de exemplares impressos do jornal fascista e o moralismo dos nossos pais. Falamos de revoluções científicas e de desaparecimentos forçados de uma vez e para sempre de todos os dinossauros.

As formigas somos assim, excessivamente pequenas, o tamanho justo para poder olhar tudo de baixo, cada vez mais baixo.

Tradução: Julia Bicalho Mendes

EPISTEMOLOGÍA DE LAS HORMIGAS.


Las hormigas somos así, hablamos del medio ambiente y la automatización. Comemos las sobras de la primer esquina y nos fijamos el detalle de cada movimiento de las nubes.

 

Nos preocupa la cantidad de ejemplares impresos del periódico facho y la moral de nuestros padres. Hablamos de revoluciones científicas y de desapariciones forzosas de una vez y para siempre de todos los dinosaurios.


Las hormigas somos así demasiado pequeñas, el tamaño justo para poder mirarlo todo desde abajo, cada vez más abajo.

(Versão original)

*

"Sou uma mulher e escrevo porque posso"

 Silvia Elena faz parte da Colectiva Jícaras, coletiva performática de   mulheres escritoras. Trabalha pelos direitos humanos das mulheres e   das pessoas jovens. Está no instagram @_silvia_elena