PACO URONDO

ARGENTINA (1930-1976)

INSTRUÇÕES PARA ESQUIVAR O MAL TEMPO

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de desastre não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.

Refugie-se em casa e tranque as portas quando todos os seus estiverem a salvo.

Compartilhe o mate e a conversa com os amigos, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.

Não deixe que a estupidez se imponha.

Defenda-se.

Contra a estética, ética.

Esteja sempre atento.

Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.

Ria estrondosamente. Faça piada: a direita é mal comida.

Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.

São coisas simples, mas não por isso menos eficazes.

Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.

E pro caralho quando o solicitarem de cima.

Faça tudo o que puder, mas nunca sozinho.

Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.

Lembre que os artistas serão sempre nossos.

E o esquecimento será feroz com a corja de impostores que os acompanha.

Tudo vai ficar bem se você me ouvir.

Sobreviveremos novamente, estamos maduros.

Cuidemos das crianças, que eles quererão podar.

Só é preciso munir-se o bastante e não poupar amabilidades.

Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.

Sorrir para nossos pais como vacina contra a angústia diária.

Ser piedosos com os amigos.

Não confundir os ingênuos com os traidores.

E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões partidas.

Aqui ninguém sobra.

E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.

Ainda sustentados em teimosias se a fé vier desmoronar.

Nisso, não haverá trégua para ninguém.

A poesia dói nesses filhos da puta.

 

Tradução: Julia Bicalho Menes

INSTRUCCIONES PARA CAPEAR EL MAL TIEMPO

 

En primer lugar, no se desespere y en caso de zafarrancho no siga las reglas que el huracán querrá imponerle.

Refúgiese en la casa y asegure los postigos una vez que todos los suyos estén a salvo.

Comparta el mate y la charla con los compañeros, los besos furtivos y las noches clandestinas, con quien le asegure ternura.

No deje que la estupidez se imponga.

Defiéndase.

A la estética, ética.

Esté siempre atento.

No les bastará empobrecerlo y lo querrán someter con su propia tristeza.

Ríase estentóreamente.

Mófese: la derecha está mal cogida.

Será imprescindible cenar juntos cada día hasta que la tormenta pase.

Son cosas simples, sencillas, pero no por ello, menos eficaces.

Diga hacia el costado buen día, por favor y gracias.

Y la concha de tu madre cuando lo soliciten desde arriba.

Tírele con lo que tenga, pero nunca solo.

Ellos saben cómo emboscarlo en la desprevenida soledad de una tarde.

Recuerde que los artistas serán siempre nuestros.

Y el olvido será feroz con la comparsa de impostores que los acompaña.

Todo va a estar bien si me hace caso.

Sobreviviremos nuevamente, estamos curtidos.

Cuidemos a los pibes que querrán podarlos.

Solo es menester bien pertrecharse y no escatimarnos amabilidades.

Deberemos dejar a mano los poemas indispensables, el vino tinto y la guitarra.

Sonreírles a nuestros viejos como vacuna contra la angustia diaria.

Ser piadosos con los amigos.

No confundir a los ingenuos con los traidores.

Y aún con estos, tener el perdón fácil para cuando vuelvan con las ilusiones forreadas.

Aquí nadie sobra.

Y eso sí, ser perseverantes y tenaces, escribir religiosamente todos los días, todas las tardes, todas las noches.

Aún sostenidos en terquedades si la fe se desmorona.

En eso, no habrá tregua para nadie.

La poesía les duele a estos hijos de puta

(Versão original)

Paco Urondo foi um escritor, jornalista, militante político argentino, membro da organização guerrilheira Montoneros. Além de uma larga coleção literária e dramatúrgica, publicou uma famosa entrevista feita com sobreviventes do Massacre de Trelew: “La patria fusilada” .