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MINIMO 31 - Julia Bicalho Mendes

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“bailar um vals al borde del abismo”, Nicanor Parra recomenda. e esse verso segue girando em torno das distâncias ou dos universos que criei para preencher as distâncias. dançar uma valsa à beira do abismo. de que se trata esse abismo, me pergunto, lotada que estou dessas quatro paredes. penso, penso. e me recordo do dia em que completei trinta anos numa pequena cidade chamada Las Cruces, em frente à casa do poeta referido. a casa estava trancada. abandonada não sei. haviam muitos poemas na parte externa do muro que a protegia, escritos por pessoas vindas de todos os lugares. pessoas que certamente foram até ali só para visitar aquela casa trancada, como eu. às vezes penso quantas casas trancadas ando visitando e por quê? às vezes também penso sob o ponto de vista da casa. trancada sem poder enxergar os próprios poemas. e também penso nos poemas que ficaram ali encerrados desde que o velho Parra morreu. foi um longo dia em silêncio aquele. um silêncio que às vezes só resgato quando danço. eu Danço. eu danço sozinha em cima dos móveis, no chuveiro, na sala, inclusive deitada. Eu danço. deixo arrebentar as bordas dos abismos. porque também já não sei distinguir as bordas que definem o corpo da casa, e nem o meu.