WhatsApp Image 2020-05-07 at 13.42.15.jp

HOJE 

 

eu me cuspi
entre as gengivas
da boca dolorida
saí
saltando
invertebrado
nunca
parti tão longe

 

para um corpo preso no guindaste

Qual a densidade de um corpo sobre si mesmo?
Ed. Patuá (2012)

Este livro não tinha intenção de ser um livro. Foi gerado espontaneamente, como os primeiros amores (talvez somente o primeiro) são gerados, e erram, erram demasiado. Demorou-se um mês para escrevê-lo. No entanto, não se deve ater aqui ao tempo dos ponteiros, visto que é um livro que se dedica a condensar-se. Sobre pequenos vulcões abertos ao corpo. O livro se divide em quatro etapas: O porto; O barco; Cartas, A vígilia. Não tendo, no entanto, uma explicação teórica sobre estes quatros aspectos, talvez apenas a necessidade do corpo de des ou compartimentar-se para caber. Poemas curtos e poemas longos sem o devido filtro. Sonoridades e nomes que reverberam no ciclo da decomposição, da digestão, do vácuo.

ÁLBUNS

só as fotos de infância permanecem fazendo sentido
as outras parecem momentos prensados
felicidades prensadas
como cartas numa garrafa

PRIMEIRA CARTA PARA O CLOWN

amar você é como pôr o coração nas mãos
o tempo todo
como afastá-lo da boca do próprio
desejo
como banhá-lo com as dores invisíveis
da compreensão de um amor não cumprido
mas como é possível compreender
o amor satisfeito?
arrancá-lo e ter a certeza
de que se poderia viver sem ele
e que deste espaço
oco
onde certamente deve residir
algum "mar de certezas mortas"
vá brotar tulipas
ou campos de trigo
mas tudo o que resta
é uma pequena
e esfomeada
trepadeira
amar você é como degolar
a si mesmo
é como beijar uma boca gritando
dentadas na nuca
sempre amoladas frente à
uma presa
mas não há presas
no curso de um redemoinho
deito sobre a mesa enquanto mal acabo
um copo de gim
e já voltamos à primeira ação do dia
sonho com corsos, bosques, barcos
tenho a triste constatação
de que [o amor] não mata
(infecciona)
então
esmago os dedos entre os travesseiros
quieta
lenta
tendo que livrar espaço
pergunte ao eliot
se é este o jardim
em que todo amor termina