GLORIA ANZALDÚA

estados unidos (1952-2004)

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Falar em línguas

uma carta para escritoras do terceiro mundo

 

 

21 de Maio, 1980

       Queridas mulheres de cor, companheiras de escrita, sento-me aqui, ao sol, desnuda, máquina de escrever no colo, tentando imaginá-las em minha mente. Uma negra, debruçada sobre uma escrivaninha, no quinto andar de algum edifício em Nova York. Uma chicana, sentada em uma varanda no sul do Texas, abanando-se contra os mosquitos e o ar quente, tentando estimular as fagulhas ardentes da escrita. Uma mulher indígena, andando para a escola ou para o trabalho, lamentando a falta de tempo para tecer a escrita em sua vida. Uma mãe solteira, lésbica, Asiático-americana, arrastada em todas as direções por seus filhos, amante ou ex-marido, e a escrita.

       Não é fácil escrever esta carta. Começou como poema, um longo poema. Tentei convertê-lo em um ensaio, mas acabou tornando-se rígido, frio. Ainda não desaprendi a lavagem cerebral, a merda esotérica e o pseudo-intelectualismo que a escola impôs na minha escrita.

 

       Como começar de novo? Como chegar na intimidade e na imediatez que quero? De que forma? Uma carta, é claro.

 

       Minhas queridas irmãs, enfrentamos muitos perigos como mulheres de cor. Não podemos transcender os perigos, nem ascender sobre eles. Precisamos atravessá-los e esperar por não ter que fazê-lo novamente.

 

       É improvável termos amigos no alto escalão da literatura, a mulher de cor iniciante é invisível no mundo dominado pelo homem branco e no mundo feminista das mulheres brancas, ainda que neste último existam mudanças graduais. A lésbica de cor não é somente invisível como nem sequer existe. Nosso discurso também é inaudível. Falamos as línguas das renegadas e loucas.

 

       Porque os olhos brancos não querem nos conhecer, não se esforçam para aprender nossa linguagem, a linguagem que nos reflete, à nossa cultura, ao nosso espírito. As escolas que frequentamos, ou não frequentamos, não nos ensinaram a escrever, nem nos deram a confiança de que tínhamos razão em usar os idiomas marcados pela nossa classe e etnia. (Eu, por exemplo, me tornei adepta e especialista do inglês por despeito, para desmascarar os professores arrogantes e racistas que pensavam que todas as crianças chicanas eram estúpidas e sujas). E o espanhol não era ensinado no Ensino Fundamental. E não foi exigido no Ensino Médio. E mesmo que agora eu escreva meus poemas em espanhol tanto quanto em inglês, me sinto roubada de minha língua nativa.

 

Não tenho imaginação, você diz

Não. Não tenho língua.

A língua para clarear

minha resistência ao literato.

As palavras são uma guerra para mim.

Ameaçam minha família.

 

Para conquistar a palavra

para descrever a perda

me arrisco a perder tudo.

Posso criar um monstro

o corpo e a extensão da palavra

inflando-se de cores, de forma emocionante,

ameaçando à minha mãe, caracterizada.

Sua voz na distância

analfabeta inteligível.

Estas são as palavras do monstro.

(Cherríe Moraga)

 

       Quem nos deu permissão para escrever? Por que será que escrever parece algo tão inorgânico para mim? Faço qualquer coisa para postergar este ato – esvaziar o lixo, atender o telefone. Há uma voz recorrente falando comigo: Quem sou eu, uma pobre chicanita do campo, para pensar que pode escrever? Como foi que me atrevi a considerar-me uma escritora, enquanto me agachava sobre as plantações de tomates, encurvada sob o sol ardente, com as mãos inchadas e calejadas, impróprias para segurar uma caneta, embrutecida como um animal aturdido pelo calor?

 

       Como é difícil para nós pensar que podemos ser escritoras, e mais ainda sentir e acreditar que podemos fazer isso. O que temos para contribuir, para dar? Nossas próprias esperanças nos condicionam. Acaso não diz, a nossa classe, a nossa cultura, tanto quanto o homem branco, que o ofício de escrever não é para mulheres como nós?

 

       O homem branco diz: talvez se você raspar o moreno da sua face. Talvez se você branquear os seus ossos. Pare de falar com essas línguas, pare de escrever com a mão esquerda. Não cultive sua pele de cor, nem suas línguas em chamas, se você quiser ter êxito no mundo da mão direita.

 

“O homem, como todos os animais, teme e repele o que não entende, e a mera

diferença pode conotar algo maligno”. (Alice Walker)

 

       Penso, sim, talvez se fossemos à universidade. Talvez se nos tornássemos mulheres-homens ou tão classe-média quanto pudéssemos. Talvez se deixássemos de amar as mulheres, seríamos dignas de dizer algo que valha. Nos convencem de que precisamos cultivar a arte pela arte. Reverenciarmos o touro sagrado e a forma. Colocarmos molduras e meta-molduras ao redor da escrita. Nos mantermos distantes para ganhar o cobiçado título de “escritora literária” ou “escritora profissional”. Acima de tudo, não seja simples, nem direta, nem imediatista.

 

        Por que lutam contra nós? Por que pensam que somos bestas perigosas? Por que somos bestas perigosas? Porque explodimos e frequentemente quebramos as imagens cômodas e estereotipadas que os brancos fazem de nós: a doméstica negra, a ama de leite com uma dúzia de bebês chupando seus seios, a chinesa de olhos puxados e mão hábil – “Elas sabem como tratar um homem na cama”, a chicana ou a indígena, de cara achatada, passivamente deitada de costas, enquanto o homem a fode, a la La Chingada.

 

       A mulher do terceiro mundo se rebela: Cancelamos, apagamos seu selo de homem branco. Quando você bater em nossas portas com seus carimbos para marcar na nossa cara ESTÚPIDA, HISTÉRICA, PASSIVA, PUTA, PERVERSA, quando você vier com seus ferretes em chamas para tatuar MINHA PROPRIEDADE em nossas nádegas, vomitaremos a culpa em sua boca, a abnegação e o ódio da raça que você nos forçou engolir. Não seremos mais suportes para seus temores projetados. Estamos cansadas de ser seus cordeiros de sacrifício e bodes expiatórios.

 

       Posso escrever isso e mesmo assim reconhecer que muitas de nós, mulheres de cor, que carregamos diplomas, credenciais e livros publicados ao redor dos pescoços, feito colares de pérolas aos quais nos agarramos como se fosse a própria vida, arriscamos contribuir com a invisibilidade de nossas irmãs escritoras. “La Vendida”, aquela que se vendeu.

 

       O perigo de vender nossas próprias ideologias. Para a mulher do terceiro mundo que tem, quando muito, um pé no mundo feminista literário, é grande a tentação de adotar as formas contemporâneas de sentir e teorizar, as últimas meias-verdades do pensamento político, os axiomas psicológicos, semi-dirigidos da nova era, que são pregados pelos movimentos feministas brancos. Suas integrantes são notórias por “adotar” as mulheres de cor como uma “causa” própria, enquanto ainda esperam que nos adaptemos às suas expectativas e à sua linguagem.

 

       Como nos atrevemos a sair dos nossos rostos de cor? Como nos atrevemos a revelar a carne humana sob a nossa pele e sangrar vermelho tal como os brancos? É preciso muita coragem e energia para não assentir, para não aceder à definição de feminismo que torna a maioria de nós invisíveis.

 

       Luisah Teish dirigindo-se a um grupo de escritoras feministas predominantemente brancas, disse, a respeito da experiência das mulheres do terceiro mundo:

 

“Se você não está presa no labirinto em que nós estamos, é muito difícil

explicar as horas do dia que não possuímos. Estas são as horas dedicadas a

criar estratégias de sobrevivência e dinheiro. E quando nos tiram alguma dessas

horas, não significa que seja uma hora conquistada para descansar, contemplar

o teto, ou conversar com uma amiga. Para mim, é um pedaço de pão”.

 

       Por que me sinto tão impelida a escrever? Porque a escrita me salva desta complacência que me amedronta. Porque não tenho outra alternativa. Porque preciso manter vivo o espírito da minha revolta, assim como o meu próprio. Porque o mundo que crio na escrita compensa aquilo que o mundo real não me oferece. Ao escrever, coloco o mundo em ordem, invento uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não apazigua meus apetites nem minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando eu falo, para reescrever as histórias mal-contadas sobre mim, sobre você. Para me fazer mais íntima de mim mesma e de você. Para me descobrir, me preservar, me construir, para conquistar a autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma poeta louca, ou uma pobre alma sofrida. Para convencer a mim mesma de que tenho valor e que o que eu tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que sim, eu posso, e escreverei, independente de qualquer advertência contra. E escreverei todo o não dito, sem me importar com o grito do censor, nem do público. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho mais medo ainda de não escrever.

 

       O ato de escrever é o ato de criar a alma, é alquimia. É a busca de si mesma, do centro do nosso ser, que nós, como mulheres, acabamos identificando como sendo o “outro” – o obscuro, o feminino. Por que não começamos a escrever para reconciliar este outro dentro de cada uma de nós? Nós sabíamos que éramos diferentes, apartadas, exiladas, daquilo que é considerado “normal”, a normatividade-branca. E à medida que internalizamos este exílio, percebemos este ser estrangeiro dentro de nós, e frequentemente, como consequência, nos separamos de nós mesmas e entre nós. Desde então estamos em busca desse ser, da “outra”, e de umas das outras. E retornamos em espirais que se expandem, mas nunca ao lugar da infância onde tudo aconteceu, primeiro em nossas famílias, com nossas mães, com nossos pais. A escrita é um instrumento para penetrar neste mistério, mas também nos ampara, nos dá um distanciamento, nos ajuda a sobreviver. E aquelas que não sobrevivem? São o desperdício de nós mesmas: tanta carne atirada aos pés da loucura, ou do destino, ou do Estado.

 

24 de Maio, 80

 

       Está escuro e úmido e chove o dia todo. Me fascinam os dias assim. Enquanto estou na cama posso penetrar ainda mais fundo no meu íntimo. Talvez hoje eu escreverei a partir deste âmago profundo. Enquanto procuro as palavras e uma voz para falar sobre a escrita, observo fixamente minha mão morena, segurando a caneta, e penso em você, a milhas e milhas daqui, segurando a sua caneta. Você não está sozinha.

 

       “Caneta, me sinto em casa fazendo piruetas com sua tinta, misturando as

teias de aranha, deixando minha assinatura nas vidraças. Caneta, como pude

ter medo de você? Você está totalmente domesticada, mas eu estou apaixonada

pelo seu lado selvagem. Terei que abandoná-la quando você começar a ser

óbvia, quando você parar de perseguir a poeira. Quanto mais você me engana,

mais eu te desejo. É justamente quando estou cansada, e tomei muito vinho ou

cafeína, que você consegue atravessar as minhas defesas e me faz dizer mais do

que eu pretendia. Você me surpreende, me desafia, até que eu reconheça

alguma parte minha que eu havia ocultado, inclusive de mim mesma”.

(Anotação no diário)

 

       As vozes das mulheres com quem partilho a casa chegam de longe até a cozinha e caem sobre estas páginas. Posso ver uma delas andando pelos quartos com seu roupão, lavando a louça descalça, sacudindo a toalha de mesa, passando o aspirador. Enquanto sinto um certo prazer ao observá-la fazer estas simples tarefas, fico pensando, mentiram para nós, não há separação entre a vida e a escrita.

 

       O perigo de escrever é não fundir nossa experiência pessoal e nossa perspectiva de mundo com a realidade social em que vivemos, nossa história, nossa economia, e nossa visão. O que nos valida como seres humanas, nos valida como escritoras. Não há assunto que seja excessivamente banal. O perigo é ser excessivamente universal e humanitária e invocar o eterno a custo de sacrificar o particular, o feminino e o momento histórico específico.

 

       O problema é focar, concentrar-se. O corpo se distrai, nos sabota com seus cem subterfúgios, uma xícara de café, apontar o lápis. E quem tem tempo ou energia para escrever depois de cuidar do marido ou do amante, dos filhos, e muitas vezes com outro trabalho fora de casa? Os problemas parecem insuperáveis e são, mas deixam de ser quando decidimos, que mesmo sendo casadas, com filhos ou trabalhando fora, encontraremos tempo para escrever.

 

       Esqueça o “quarto todo seu” – escreva na cozinha, tranque-se no banheiro. Escreva no ônibus, ou na fila da previdência social, ou no trabalho, durante as refeições, entre dormir e despertar. Eu escrevo até sentada no vaso. Não há tempo sobrando para a máquina de escrever, a menos que você seja rica ou tenha um patrocinador (pode ser que você nem tenha uma máquina de escrever). Escute as palavras ressoando em seu corpo enquanto você limpa o chão ou a roupa. Quando estiver deprimida, com raiva, ferida, quando a compaixão e o amor te possuírem. Quando você não puder fazer mais nada senão escrever.

 

26 Maio, 1989

 

       Queridas mulheres de cor, me sinto pesada e cansada e há um zumbido na minha cabeça – muitas cervejas ontem à noite. Mas preciso terminar esta carta. Meu incentivo: me levar para comer uma pizza.

 

        Então corto e colo e cubro o chão com meus pedaços de papel. Minha vida espalhada em pedaços pelo chão, enquanto tento por alguma ordem nela, trabalhando contra o tempo, preparando-me psicologicamente com café descafeínado, tentando preencher os buracos.

 

       Leslie, minha companheira de casa, entra e se ajoelha para ler meus fragmentos no chão e diz, “Está bom, Gloria”. E eu penso: Não tenho que voltar ao Texas, aos meus conterrâneos, mesquitas, cactos, cascavéis, papa-léguas. Minha família, esta comunidade de escritoras. Como pude viver e sobreviver tanto tempo sem ela? E me lembro do isolamento, revivo essa dor. 

 

       “Calcular os danos é um ato perigoso”, escreve Cherríe Moraga. Permanecermos ali é ainda mais perigoso. Agora entendo porque resisti ao ato de escrever, ao compromisso de escrever. Escrever é confrontar nossos demônios, encará-los, e viver para escrever sobre eles. O medo atua como um imã, retira os demônios de dentro do armário e os atrai para a tinta das nossas canetas.

 

       O tigre que caminha em nossas costas nunca nos deixa só. Nos impulsiona a escrever constantemente, até sentirmos que somos vampiras, chupando o sangue de uma experiência extremamente fresca, que estamos chupando o sangue da vida para alimentar a nossa caneta. Escrever é a coisa mais arriscada que fiz e a mais perigosa. Nellie Wong nomeia o ato de escrever como “o demônio de três olhos gritando a verdade”.

 

       Escrever é perigoso porque temos medo do que a escrita revela: os temores, a coragem, a força de uma mulher sob uma opressão tripla ou quádrupla. Mas é nesse mero ato que se encontra nossa sobrevivência, porque uma mulher que escreve tem poder. E uma mulher com poder é temida.

 

“O que significou para uma Negra ser artista na época das nossas avós?... É

uma pergunta com resposta tão cruel que seria capaz de parar o sangue...” 

(Alice Walker, 1983)

 

       Nunca vi tanto poder na capacidade de comover e transformar as outras como aquele que tem a escrita das mulheres de cor. Na companhia dessas mulheres, a solidão de escrever e a sensação de impotência se dissipam. Entre nós, podemos falar do que escrevemos, ler nossas obras em voz alta. Quando estou sozinha, ainda que sempre em comunhão com cada uma dessas mulheres, a escrita me possui e me impulsiona, mais e mais, a saltar para um lugar sem tempo, sem espaço, onde esqueço de mim mesma e me sinto parte do universo. Isto é o poder.

 

       Não é no papel que você cria, e sim nas suas entranhas, nas suas tripas e nos tecidos vivos – chamo isto de escrita orgânica. Um poema funciona para mim não quando diz o que eu quero que diga, nem quando evoca o que eu quero que evoque. Ele funciona quando o assunto com o qual comecei se metamorfoseia alquimicamente em algo distinto, em outro tema que foi descoberto, destampado, pelo próprio poema. Funciona quando me surpreende, quando diz algo que eu havia reprimido ou fingido não saber. O sentido e o valor da minha escrita se medem pelo risco que eu corro e a nudez que conquisto.

 

 “Audre [Lorde] disse que precisamos elevar a voz. Falar alto, dizer coisas

que transtornem, sermos perigosas, dizer que se fodam, ao inferno, deixar sair,

que todos nos ouçam, querendo ou não”.  

 (Kathy Kendell 1980)

 

       Eu digo, mulher mágica, se esvazie de si. Se desafie até encontrar novas maneiras de ver, desafie os seus leitores até que o mesmo aconteça. Acabe com os zumbidos em sua cabeça.

 

       Sua pele deve ser suficientemente sensível para o beijo, mas suave e espessa o bastante para protegê-la do desdém. Se você for cuspir no olho do mundo, tenha certeza de estar com o vento à favor. Escreva sobre o que mais nos conecta à vida, a sensação do corpo, as imagens vistas, a extensão da psique tranquila: momentos de alta intensidade, seu movimento, sons, pensamentos. Mesmo ao passarmos fome, não somos pobres de experiências.

 

“Penso que muitas de nós fomos enganadas pelos meios de comunicação

de massa, pelo condicionamento social das nossas vidas, acreditando que

devemos viver com grandes explosões, ‘nos apaixonando’ ou ‘nos entregando

à sorte’, e nos deixando enfeitiçar pelos gênios da lâmpada que realizam

todos os nossos desejos, cada anseio de infância. Os desejos, sonhos e fantasias

são partes importantes das nossas vidas criativas. São os passos que uma

escritora assimila em sua técnica. São os espectros dos recursos à caminho da

verdade, o coração das coisas, o imediatismo e o impacto do conflito humano”.

(Nellie Wong 1979)

 

       Muitas têm facilidade com as palavras. Denominam-se visionárias, mas não vêem. Muitas têm o dom da fala, mas não dizem nada. Não as escutem. Muitas das que têm palavras e língua não têm ouvidos, não podem ouvir e não ouvirão.

 

       Não há necessidade de que as palavras proliferem em nossa mente. Elas germinam na boca aberta de uma menina descalça entre as multidões inquietas. Elas murcham nas torres de marfim e nas salas da universidade.

 

       Jogue fora as abstrações e a aprendizagem acadêmica, as regras, o mapa e o compasso. Tateie sem vendas. Para alcançar mais pessoas, precisamos evocar as realidades pessoais e sociais – não através da retórica, mas do sangue, do pus e do suor.

 

       Escreva com seus olhos de pintora, com ouvidos de musicista, com pés de dançarina. Você é a profetisa com penas e tocha. Escreva com sua língua de fogo. Não deixe que a caneta te desterre de si mesma. Não deixe que a tinta se coagule na caneta. Não deixe que a censura apague a faísca, nem que as mordaças calem sua voz. Ponha a sua merda no papel.

 

       Não estamos reconciliadas com os opressores que afiam seu grito em nosso lamento. Não estamos reconciliadas.

 

       Encontre a musa que existe em você mesma. Desenterre a voz que está soterrada dentro de si. Não se falsifique, não se venda por um aplauso, nem para que publiquem teu nome.

 

Amor,

Gloria

Tradução: Julia Bicalho Mendes

Versão original em espanhol e referências bibliográficas aqui

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Gloria Anzaldúa foi uma escritora chicana, nascida no Texas, estudiosa da teoria cultural chicana, teoria feminista e teoria queer. Um dos seus trabalhos mais conhecidos foi o livro autobiográfico Borderlands/La Frontera: The New Mestiza, obra que mistura prosa e poesia